quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A polêmica do arquipélago das Malvinas

"Vamos continuar trabalhando incansavelmente pelos nossos direitos nas Ilhas Malvinas"

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Falklands ou Malvinas?


Pio Penna Filho*

A questão das Ilhas Malvinas volta à baila com os protestos britânicos que se seguiram à decisão dos países do Mercosul de fechar os seus portos a embarcações que utilizem a bandeira das Falklands, como os colonialistas ingleses definem as Ilhas. Aliás, o paradoxo dos paradoxos foi a recente declaração do primeiro ministro britânico de que os argentinos estão sendo “colonialistas” ao reivindicar a soberania sobre o arquipélago.

Depois da desastrosa guerra de 1982, quando militares argentinos, no ocaso da ditadura iniciada em 1976, se lançaram numa aventura militar mal planejada e pessimamente executada, os britânicos reafirmaram por meio da força a sua soberania sobre as ilhas. A guerra comprometeu também, pelo menos temporariamente, as reivindicações da República Argentina de posse das Malvinas. De toda forma, os argentinos jamais abriram mão do princípio de que as ilhas lhes pertencem.

O domínio britânicos sobre as Malvinas remete ao tempo em que a Inglaterra se firmava com a grande potência do século XIX. Dominadora dos mares, a “pérfida Albion” gradativamente espalhou o seu poder em direção a todos os mares e continentes, estabelecendo colônias, protetorados, além de outras formas de administração direta ou indireta de territórios e subjugando populações inteiras. Não agiu sozinha. Outras potências europeias executaram projetos semelhantes, disseminando o “perigo branco” em todas as direções.

Como a roda da história não para de girar, também gradativamente todo o Império construído com muito sofrimento e sangue, sobretudo dos povos conquistados, foi-se desfazendo. Esse processo teve início em 1947, já terminada a Segunda Guerra Mundial, momento histórico em que a primeira peça da enorme coleção de colônias de Sua Majestade consegue se ver livre de uma vez por todas das garras britânicas. Refiro-me à independência da Índia.

Daí em diante foi como se o tempo tivesse se acelerado, apressando o fim do sinistro sistema colonial. Os britânicos, assim como os outros colonialistas europeus, sobretudo franceses, foram sendo despejados e reenviados de volta ao velho continente. Mas ainda ficaram alguns resquícios dessa época em que a Europa ditava as regras do ordenamento mundial.

As Malvinas são um exemplo, mas não o único. É sempre bom lembrar que a Guiana Francesa, nossa vizinha mais ao norte, é o que os franceses chamam de Departamento do Ultramar. Um território da França em plena América do Sul! Somos, por assim dizer, vizinhos da França. Só a história consegue explicar essa aberração, essa vontade de poder e controle de territórios e povos tão longe de casa que boa parte dos países europeus cultivaram ao longo de séculos e que alguns ainda resistem em abandonar.

A reivindicação dos argentinos é justa e esse é o entendimento da maioria dos países latino-americanos. O tempo dos grandes impérios já se foi e os europeus deveriam ter consciência disso. Mas, pelo visto, teremos que esperar pelo menos mais meio século para que a Europa reflua definitivamente para suas fronteiras originais.



*Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com

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