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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Movimentos sociais, direitos, cidadania

Unidade 4

Movimentos sociais, direitos e cidadania





DESAFIANDO
Os movimentos sociais clássicos: a greve como elemento central

Acompanhe a leitura de uma história fictícia e posicione-se diante dos fatos.
Uma família de seis pessoas: pai, mãe e quatro filhos, de condição social desfavorecida, encontra-se doente, e lá deparam-se com um movimento grevista, dos funcionários da saúde, que reivindicam melhorias salariais e, principalmente, melhores condições de trabalho.
Os pais, percebendo que não seriam atendidos, dirigem-se para o hospital mais próximo, cerca de noventa minutos de ônibus. Enquanto isso, agrava o estado de saúde do filho doente. Ele passa mal, tendo ânsias de vômitos, chegando a vomitar sangue. A criança de seis anos, no caminho do hospital, piora cada vez mais, provocando ansiedade e preocupação nos pais.
Depois da longa jornada de ônibus, a família chega ao hospital. O desespero toma conta dos pais quando ali lhes comunicam que, também neste hospital, os funcionários da saúde encontram-se em movimento grevista. A criança piora; o pai se desespera, protesta com veemência e até com violência. Seguranças do hospital detêm-no e encaminham-no para a polícia. Enquanto isso, a mãe, desesperada com os acontecimentos, percebe que seu filho não responde mais ao chamado. Na confusão da fila do hospital, a criança morre nos braços dela e sem nenhum atendimento.
Em outro ponto da cidade, em outro momento, vários médicos, enfermeiros e funcionários se reúnem em assembleia para analisarem os indicativos de greve sugeridos pelo sindicato. Todos ponderam sobre os salários defasados e os seis meses de atraso, analisam ainda o pouco caso das autoridades em relação à saúde, que não disponibilizam verbas necessárias para a manutenção mínima dos postos de saúde e dos hospitais. Depois de várias tentativas de negociação com o Estado, os funcionários da saúde decidem pela paralisação do atendimento médico e ambulatorial, cumprindo-se o que a lei determina, preservando o atendimento de urgência.
No hospital onde a criança faleceu, o único médico para atendimento de emergência encontrava-se assoberbado de trabalho e somente ficou sabendo do acontecido quando já não tinha mais o que fazer.
A imprensa, que acompanhava o desenrolar da greve dos funcionários da saúde, presenciou o falecimento da criança e, obviamente, noticiou-o com todo alarde, levantando o questionamento: quem seria o responsável pela tragédia acontecida?

1. Após a discussão da história, qual o posicionamento do grupo em relação a quem se deve atribuir a responsabilidade pela morte da criança? Justifiquem a resposta.

2. Diante dos fatos apresentados na história e dos conhecimentos adquiridos até aqui, como o grupo se posiciona diante do direto de greve?

3. Como lidar com a greve de serviços fundamentais, como em hospitais e postos de saúde? Justifiquem a resposta.

CONFRONTANDO


Para construirmos conhecimento, necessitamos confrontar nossas ideias e convicções. Leia os textos a seguir e, depois, confronte as ideias neles apresentadas com as observações e análises elaboradas por você nas situações que foram propostas anteriormente.
A GREVE E A SUA NATUREZA JURÍDICA
Os movimentos sociais clássicos (ou tradicionais, para alguns autores), centrados nos conflitos de base econômica, oriundos das condições materiais de produção da existência e da desigualdade social, tais como tem sido observado nos movimentos operários, camponeses, abolicionistas e outros.
Esses movimentos fazem uso do recurso da greve, que é a cessação coletiva e voluntária do trabalho, decidida por sindicatos de trabalhadores assalariados de modo a obter benefícios, como aumento de salário, melhoria de condições de trabalho ou direitos trabalhistas, ou para evitar a perda de benefícios. Por extensão, pode referir-se à cessação coletiva e voluntária de quaisquer atividades, remuneradas ou não, para protestar contra algo.
A greve é, sem sombra de dúvida, uma das maneiras mais eficazes de busca dos interesses da classe trabalhadora no sistema laboral mundial. É a forma de obtenção quase imbatível de aceite total ou parcial do empregador aos reclames quase sempre justificados da classe trabalhadora, através da paralisação coletiva da força de trabalho, de modo a pressionar a classe patronal a posicionar-se numa mesa de negociações, situação inaceitável em dias arcaicos.
Nos dias de hoje, os movimentos grevistas não se encontram com a mesma força e eficácia de outros tempos. Muitas vezes, a adesão à greve não é grande por parte dos trabalhadores, comprometendo assim o movimento. Por esse motivo, outras formas de reivindicação vêm sendo utilizadas pelos movimentos reivindicatórios. Atualmente, a paralisação total dos serviços é evitada e “operações tartarugas” são praticadas, ou seja, diminuição de atendimentos, ônibus em filas nas avenidas e ruas, turno de trabalho reduzido, entre outras.

4. O que caracteriza os movimentos sociais?

5. Por que a greve foi um instrumento eficaz na busca dos interesses da classe trabalhadora e hoje nem tanto?

Os direitos civis, políticos e sociais

Leia as definições a seguir.

O direito civil é o principal ramo do direito privado. Trata-se do conjunto de normas (regras e princípios) que regulam as relações entre os particulares que se encontram em uma situação de equilíbrio de condições. O direito civil é o direito do dia a dia das pessoas em suas relações privadas cotidianas.
As demais vertentes do direito privado, como o direito do trabalho, o direito comercial e o direito do consumidor encontram sua origem no direito civil, sendo dele separados com a finalidade de buscar a proteção a uma das partes, seja por ser ela concretamente mais fraca que a outra (como o trabalhador e o consumidor), ou por ser ela merecedora de uma proteção em virtude de sua função sócio-econômica (o comerciante/empresário).
O direito civil tem como objetivo estabelecer os parâmetros que regem as relações jurídicas das pessoas físicas e jurídicas. Por isso, estabelece as condições em que os membros de uma comunidade podem relacionar-se, nos mais variados sentidos.
A principal norma objetiva do direito civil é o Código Civil (Lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002) que é dividido em 2 partes: a parte geral e a parte especial. Os procedimentos aplicados ao direito civil, na configuração do ordenamento brasileiro, são regulados pelo Código de Processo Civil. Atualmente está em trâmite o Anteprojeto do Novo Código de Processo Civil que irá trazer diversas mudanças na maneira de se aplicar e de se ver o direito civil.
Refere-se à pessoa, à família, aos bens e à sua forma de aquisição, à sucessão (com quem os bens ficam depois da morte de alguém), às obrigações de fazer e de não fazer e aos contratos. Regulamenta os atos das pessoas jurídicas, principalmente o Direito Comercial/Empresarial.
A cidadania é o conjunto dos direitos políticos que lhe permitem intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e na sua administração, seja ao votar (direto), seja ao concorrer a cargo público (indireto). Os direitos políticos são regulados no Brasil pela Constituição Federal em seu art. 14, que estabelece como princípio da participação na vida política nacional o sufrágio universal. Nos termos da norma constitucional, o alistamento eleitoral e o voto são obrigatórios para os maiores de dezoito anos, e facultativos para os analfabetos, os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos e os maiores de setenta anos.
O historiador T. H. Marshall propôs uma distinção entre três dimensões da cidadania: direitos civis (necessários à liberdade individual), direitos políticos (ligados à participação no exercício do poder político) e direitos sociais que incluem “ a segurança e o bem-estar econômico, direito a compartilhar da riqueza socialmente produzida e o de viver uma vida civilizada, segundo padrões sociais condizentes” (SILVA, 2000, p. 127).
Os direitos civis foram defendidos pela burguesia como universais e se constituíram em elemento fundamental na sua luta contra as restrições do feudalismo e do absolutismo. As instituições mais claramente associadas aos direitos civis são os tribunais. Os direitos políticos e sociais, por sua vez, foram encarados, inicialmente, como privilégios dos grupos mais poderosos e só aos poucos foram sendo estendidos a setores mais amplos da sociedade. Segundo Carvalho (2003), a idéia de uma seqüência cronológica no surgimento ou conquista dos direitos é apresentada por Marshall, tomando como base a experiência histórica inglesa. Neste país, os direitos civis são conquistados no século XVIII, os políticos, no século XIX e os sociais, no século XX. Esta ordem não seria apenas cronológica, mas seguiria uma lógica, já que os direitos civis criaram condições para a reivindicação do direito de voto e a participação política possibilitou a eleição de operários e a criação do Partido Trabalhista, o que levou à introdução dos direitos sociais.
Tomando como referência H. Marshall, Carvalho quer demonstrar que no Brasil não houve um atrelamento dessas três dimensões políticas. O direito a esse ou àquele direito, digamos à liberdade de pensamento e ao voto, não garantiu o direito a outros diretos, por exemplo, à segurança e ao emprego.
O diferencial entre a nossa cidadania e a dos ingleses está no fato de que o tripé que compõe a cidadania, direitos políticos, civis e sociais, foi por aquele povo conquistado e a nós ele foi doado, segundo os interesses particulares dos governantes de plantão.
No Brasil, dificilmente se tem o povo no comando de suas demandas políticas. Essa responsabilidade acaba por ficar a cargo de outras instituições. No caso brasileiro, essa tarefa tem sido desenvolvida pelo Estado. A partir dessa premissa, Carvalho expõe aquela que será a ideia central de seu trabalho, argumentando que a lógica da sequência descrita por Marshall foi invertida no Brasil; a pirâmide dos direitos foi colocada de cabeça para baixo. Aqui, primeiro vieram os diretos sociais, nos anos 30, implantados por Getúlio Vargas, um ditador que se tornou popular – o que explicaria, em parte, a origem do Estado clientelista no país. O autor verifica qua a falta de liberdade política sempre foi compensada, pelo autoritarismo do Brasil pós-30, com o paternalismo social. O argumento de sustentação para a tese de Carvalho é a de que a participação na política nacional, inclusive nos grandes acontecimentos, era limitada a pequenos grupos, sem a presença das massas. Desde os mais remotos tempos coloniais até 1930, não havia o povo organizado politicamente, nem sentimento nacional consolidado. A grande maioria do povo tinha com o governo uma relação ou de distância ou de antagonismo. Se houve ações políticas do povo, estas eram realizadas como reação ao que considerava arbítrio das autoridades. té 1930, o povo não tinha lugar no sistema político, seja no Império, seja na República, daí não haver lugar para a introdução de direitos, tais como os sociais. Por isso mesmo, sustenta o autor, a queda da Primeira República teria representado um avanço em relação à sua proclamação em 1889. Tal avanço dar-se-ia, se não necessária e imediatamente em direção aos direitos civis e políticos, certamente em direção aos direitos sociais.
Se por um lado a expansão dos direitos trabalhistas – sociais – significou efetivamente um avanço da cidadania na medida em que trazia as massas para a política, em contrapartida, criava uma massa de reféns da União e de seus tentáculos regionais. A “doação dos direitos sociais”, ao invés da conquista dos mesmos, fazia os direitos serem percebidos pela população como um favor, colocando os cidadãos em posição de dependência perante os líderes.
Que tipo de cidadania poderia daí resultar? questiona-se o autor, vista a pirâmide de Marshall não ter base de sustentação no Brasil. A resposta do autor é que o mínimo que se pode esperar é por um enaltecimento do Executivo, em detrimento dos outros dois Poderes. Daí o encantamento da população com o uso do “punho forte” do Executivo e seu menosprezo aos demais Poderes. Além disso, o Estado passa a ganhar uma certa supremacia sobre a sociedade civil, o que é terrível, pois, nessa relação é extraída a possibilidade de organização livre e independente das massas, numa espiral viciosa, para a conquista dos direitos. O grande dilema que se coloca Murilo de Carvalho dentro dessa perspectiva é justamente o tipo de cidadão e de sociedade que se formam, quando a base da pirâmide descrita por Marshall é invertida. A convicção democrática, por certo, conclui o autor, está comprometida, pois entre o Judiciário e o Executivo praticamente não há separação, e, portanto, nenhuma garantia do exercício das liberdades. Daí, sem o exercício das liberdades, dificilmente se chegaria a conquista dos direitos políticos plenos.

6. De acordo com os textos anteriores, defina direito civil, político e social.
7. Qual a diferença entre a cidadania inglesa e a brasileira?
8. Qual a tese levantada por Carvalho na construção da cidadania brasileira?

SISTEMATIZANDO

Como os clássicos observam a questão dos diretos:

Para Marx, a cidadania é parte integrante do que ele denomina emancipação política. Portanto, do campo da política. E a política é, para ele, em sua essência, uma forma de opressão. Como diz, no Manifesto do Partido Comunista, de 1848: O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra.
Ao contrário dos autores liberais, que consideram a política como a dimensão fundante da sociedade, Marx afirma que a emancipação política tem seu fundamento no que ele chama de sociedade civil, ou seja, nas relações econômicas. E a emancipação política é uma dimensão que tem suas origens históricas na passagem do feudalismo ao capitalismo. Suas raízes histórico-ontológicas se encontram no ato de compra-e-venda de força de trabalho, com todas as suas conseqüências para a constituição da base material da sociedade capitalista. Este ato originário produz, necessariamente, a desigualdade social, uma vez que opõe o possuidor dos meios de produção ao simples possuidor de força de trabalho. E o que acontece, todos os dias, diante dos nossos olhos nos mostra que a produção da desigualdade social é uma tendência crescente e não decrescente da reprodução do capital. O que significa que será cada vez mais forte a impossibilidade de criação de uma autêntica comunidade humana sob a regência do capital.
No entanto, este ato originário precisa, para se tornar efetivo, de homens livres, iguais e proprietários. Não, porém, efetivamente livres, iguais e proprietários, mas apenas no aspecto formal. Ou seja, apenas na sua dimensão jurídico-política e nunca em sua dimensão social. Esta situação é a responsável pelo fato de a sociedade capitalista ser, necessariamente, dividida em uma dimensão privada e em uma dimensão pública. Sendo sempre a primeira a matriz da segunda. O resultado disto é que esta esfera – jurídico-política – não é indefinidamente aperfeiçoável, mas, pelo contrário, essencialmente limitada. Ser cidadão é ser participante desta dimensão pública. Ser cidadão, portanto, não é ser efetivamente, mas apenas formalmente, livre, igual e proprietário. Por mais direitos que o cidadão tenha e por mais que estes direitos sejam aperfeiçoados, a desigualdade de raiz jamais será eliminada. Há uma barreira intransponível no interior na ordem social capitalista. Conseqüentemente, a busca, hoje, pela construção de um mundo cidadão é uma impossibilidade absoluta. Em resumo: apesar dos aspectos positivos, para a emancipação humana, que marcam a cidadania, ele é, por sua natureza mais essencial, ao mesmo tempo expressão e condição de reprodução da desigualdade social e, por isso, da desumanização. Por isso mesmo, deve ser superada, não porém em direção a uma forma autoritária de sociabilidade, mas em direção à efetiva liberdade humana.

Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/044/44ctonet.htm

Cidade e cidadania
BÁRBARA FREITAG

Weber valorizou, ao lado da função econômica, a dimensão política e jurídica para caracterizar a cidade e os cidadãos. Para ele, a cidade constitui o quadro de referencia dentro do qual uma nova estrutura de poder emerge, em que os direitos humanos de primeira geração, os assim chamados direitos naturais e imprescindíveis do homem (direito à liberdade, à propriedade, à segurança e o direito de resistência à opressão) são conquistados.
Max Weber desenvolveu sua teoria da origem das cidades da Europa central no contexto de sua sociologia da dominação. Em sua explicação, essas cidades teriam sido o resultado de um movimento de cidadãos, que se opunham ao poder feudal das aristocracias rurais. Mesmo antes da Revolução Francesa (1789) e da industrialização na Europa, esses cidadãos se sublevaram contra o poder hegemônico, desconsiderando o poder baseado na linhagem do sangue e na propriedade rural. Graças à produção de riquezas das guildas, corporações, associações profissionais, ligas e companhias comerciais, criou-se as cidades da Europa central um poder alternativo econômico, baseado na solidariedade dos membros das associações profissionais, na igualdade dos cidadãos perante a lei, na segurança interna, desenvolvida e respeitada intramuros. Como esse novo poder urbano não tinha legitimidade do sangue, da tradição, da riqueza herdada dos pais, ele foi se impondo como contrapoder ao regime feudal em vigor, adquirindo autoconfiança e coesão social. Por desrespeitar hierarquias de poder aristocráticas e defender a propriedade privada de cada cidadão, este novo poder urbano foi caracterizado por Weber como sendo um poder “ilegítimo”.
Reunidos em associações profissionais (guildas, corporações, ligas) que se davam suas próprias leis de funcionamento e financiavam com seus próprios recursos sua defesa em caso de ataques externos, os cidadãos da cidade pré-industrial formação o chão sobre o qual viria emergir a sociedade burguesa, a Revolução Francesa e, finalmente, o Estado Nacional.

9. Destaque a diferença de abordagem de Marx e Weber na questão da cidadania.
10. Qual dos conceitos de direito apontados anteriormente pelos clássicos mais se aproxima do conceito de direito na sociedade contemporânea?
A responsabilidade de todos nós

Fernando Gabeira *

Já faz muito tempo, numa pequena cidade japonesa, um homem comum teve uma experiência extraordinária. Todos os dias fazia o mesmo trajeto entre a casa e o trabalho, até que um dia deparou-se com um largo buraco negro à beira do caminho, que nunca tinha notado. Aproximou-se e, como não enxergava o fundo, atirou lá dentro uma pedra, para medir a profundidade em função do tempo da queda. Mas não houve ruído algum. Repetiu a tentativa com vários outros objetos, mas nada preenchia o buraco ou indicava sua profundidade. Intrigado, o homem fez uma última tentativa de entender aquele buraco, gritando para o seu interior: "Há alguém ai embaixo?" A única resposta que obteve foi o eco de sua própria voz.

O homem saiu pelas ruas a divulgar o estranho fenômeno. Além da atenção dos curiosos, em pouco tempo o buraco passou a receber também sacos e mais sacos de lixo. Primeiro da vizinhança, depois de todo o bairro, da cidade e do país. Enfim, aquele misterioso buraco era a solução para o problema do lixo do mundo.

Alguns meses depois, em seu caminho para o trabalho, o homem contemplava mais uma vez o milagroso buraco que descobrira, quando desabou sobre sua cabeça um gigantesco saco de lixo. Refeito do impacto, o homem olhou à sua volta e não viu ninguém, nem ouviu nada. Exceto uma voz distante, que parecia vir do céu: "Há alguém ai embaixo?"



Esta antiga parábola japonesa, aqui resumida, expressa de certa forma a história da percepção que a Humanidade tem do meio ambiente: um lugar de onde se extraem riquezas, mas desvalorizado em sua totalidade, mero pano de fundo para as atividades humanas, uma dimensão exterior ao homem, capaz de absorver de forma infinita tudo aquilo que não lhe serve.

Nos anos 60, o mundo começou a descobrir que estava mergulhado numa crise ecológica. Vários tipos de contaminação, dos pesticidas aos resíduos nucleares, já comprometiam águas, solos e ar em escala planetária. A exploração dos recursos naturais também logo se mostraria acelerada demais. Foi então que cientistas, jornalistas a ativistas em geral iniciaram a grande virada de consciência: o meio ambiente, que até então não era problema de ninguém, teria que passar a ser responsabilidade de todos.

Essa virada ainda não se completou. E isso provavelmente levará ainda algumas décadas, como ocorre com toda grande transformação cultural. No entanto, é possível afirmar que a fase mais difícil desse processo já foi cumprida. Nos últimos trinta anos, uma massa impressionante de informações sobre a problemática ambiental foi gerada e reproduzida intensamente pela mídia, pela literatura e pelas próprias pessoas. Existe hoje um considerável grau de conhecimento sobre o meio ambiente consolidado nas instituições e disseminado na opinião pública. Falta transformar esse conhecimento público em consciência individual.

Assim como os direitos humanos e todas as conquistas civis, o direito a um meio ambiente equilibrado só irá vigorar de fato quando tornar-se uma convicção de cada um. É claro que, como no resto do mundo, já existe no Brasil uma série de instituições encarregadas de zelar pelo meio ambiente, a começar pela própria Constituição (além de farta legislação, órgãos públicos, etc). No entanto, a força e a legitimidade dessas instituições serão um reflexo direto da real importância que lhes confere o cidadão. Uma simples rua esburacada, por exemplo, basta para provocar indignação e protestos, mas ainda que o ar dessa mesma rua irrite olhos, provoque tosse e consuma pulmões, na maioria das vezes o cidadão ainda engole a poluição calado.

A média dos cidadãos ainda não tem a compreensão da abrangência que a questão ecológica alcançou no mundo moderno: saúde, emprego, alimentação, segurança, eficiência empresarial, energética e de transportes, qualidade de vida urbana e rural são conquistas previsíveis de uma sociedade que investe em meio ambiente. E só as novas gerações, com seus princípios ainda em formação, serão capazes de compreender a fundo a necessidade de se retirar a ecologia do segundo plano para tratá-la como questão prioritária.

Por mais que Estado, empresas, imprensa e cidadãos tenham se aprimorado no exercício de suas responsabilidades para com o meio ambiente, a grande transformação cultural que pode livrar o planeta do colapso depende, do surgimento de uma nova mentalidade. Por conta disso, aqueles cujo ofício é justamente ajudar a fazer as novas cabeças - como os profissionais do ensino - têm hoje uma grande fatia da responsabilidade sobre o destino do meio ambiente mundial.

Jornalista e escritor, deputado federal (PV-RJ). http://www.intelecto.net/cidadania/meio-1.html
11. Explique o título do texto: “A RESPONSABILIDADE É DE TODOS NÓS”.
12. Explique a afirmação a seguir: “Uma simples ruas esburacada, por exemplo, basta para provocar indignação e protestos, mas ainda que o ar dessa mesma rua irrite os olhos, provoque tosse e consuma pulmões, na maioria das vezes, o cidadão ainda engole a poluição calado.”

13. O que significa tratar a Ecologia como questão prioritária?
14. Qual a nova mentalidade que se espera das pessoas para o trato com a Ecologia?

15. Na parábola, aparece uma voz que pergunta: “Há alguém aí embaixo?” De quem poderia ser essa voz? Observando o conteúdo do texto, justifique sua resposta.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Saiba mais sobre as relações políticas e o Estado

Unidade 3
Segundo Ano - Sociologia
As relações políticas e o Estado

Manifestação em Brasília contra o PL122 reuniu pessoas de todo o país. Foto: Ronald Batista / GAZETA Setelagoana

Desafiando

Organizados em duplas, entrevistem-se mutuamente, segundo as questões:

1. De 0 a 10, que nota você daria para a atuação dos deputados e senadores brasileiros?

Nota ( )

2. Na sua opinião, qual é a porcentagem de bons deputados e senadores em atuação no Congresso Nacional hoje?

Porcentagem ( )

3, Na sua opinião, os deputados e senadores brasileiros trabalham

( ) muito.

( ) o suficiente.

( ) pouco.

( ) Não sabe.

4. Na sua opinião, os deputados e senadores brasileiros

( ) representam e defendem mais os interesses e desejos da sociedade.

( ) representam e defendem os interesses dos grupos políticos.

( ) representam e defendem mais os seus próprios interesses.

( ) Não sabe.

5. Você saberia dizer qual é o nome do atual presidente da Câmara dos Deputados?

Sim ( ) Não ( )

6. Lembre-se de alguma medida de um deputado que tenha sido importante para sua cidade ou região?

Sim ( ) Não ( )

7. Lembra-se de alguma medida de um senador que tenha sido importante para sua cidade ou região?

Sim ( ) Não ( )

8. Lembra-se de alguma medida de um governador que tenha sido importante para sua cidade ou região?

Sim ( ) Não ( )

9. Com qual dessas ideias você concorda?

( ) Sem deputados e senadores, não pode existir democracia.

( ) A democracia pode funcionar sem deputados e senadores.

( ) Não sabe.

10. Escolha três características que, na sua opinião, melhor definem os parlamentares brasileiros:

Característica 1:

Característica 2:

Característica 3:

11. Na sua opinião, qual dos animais abaixo está mais associado à imagem dos parlamentares?

( ) Cão de guarda

( ) Rato

( ) Coruja

( ) Abutre

( ) Nenhuma delas

( ) Não sabe

12. Qual dos seguintes fatos é mais grave, na sua opinião?

( ) A proposta dos parlamentares de aumentar em 91% o próprio salário.

( ) O escândalo do mensalão.

( ) O fato de a semana útil do congresso ter três dias.

( ) O fato de os deputados e senadores receberem mesmo sem trabalhar, durante os meses de dezembro e janeiro.

( ) O fato de cada parlamentar receber 40 000 reais por apenas um mês de trabalho.

( ) Nenhum deles.

( ) Não sabe.

13. Após responderem a entrevista, façam um levantamento estatístico das respostas da turma e comparem os resultados com a pesquisa Ibope Opinião feita a pedido da revista Veja, entre os dias 23 e 25 de janeiro de 2007, com 1 400 moradores de capitais, periferia e interior das cinco regiões brasileiras.

13. A partir da comparação proposta anteriormente, discutam, em grupo, o que é política, poder e autoridade. Registrem aqui as definições discutidas.

CONFRONTANDO

Para construirmos conhecimento, necessitamos confrontar nossas ideias e convicções. Leia o texto a seguir e, depois, confronte as ideias nele apresentadas com as observações e análises elaboradas por você nas situações que foram propostas anteriormente.


Quando pensamos em política, a primeira coisa que vem à cabeça são os políticos profissionais, tais como deputados, senadores, vereadores e governadores. Logo em seguida, pensa-se que política é um tema desagradável e que provoca conflitos de ideias, às vezes até violentos. O que não se pensa de imediato é que política se faz a todo instante e em todas as relações que as pessoas estabelecem.

Para Aristóteles, o homem é um animal social e político por natureza. E. se o homem é um animal político, significa que tem necessidade natural de conviver em sociedade, de promover o bem comum e a felicidade. Aristóteles afirma ainda que a pouca experiência da vida torna o estudo da Política supérfluo para os jovens, por regras imprudentes, que só seguem suas paixões. Estará aqui o motivo do desinteresse da maioria da juventude em relação à política?

Política sugere poder, que também se encontra em todas as relações das pessoas, pois cada um se apresenta ao outro na manifestação do seu poder de persuasão e convencimento.

O conceito de poder varia com o tempo e a corrente de pensamento. Para adeptos do pensamento marxista, poder é “a capacidade de uma classe social realizar os seus interesses objetivos específicos”. Hanna Arendt falou que o poder é oposto da violência. A violência acontece quando se dá a perda de autoridade e poder. Para Maquiavel, a obrigação do governante (Príncipe) deve ser a de conquista e manter o poder. Para isso, ele deve adotar algumas estratégias.

Max Weber conceituou o poder como sendo “ a probabilidade de um certo comando com um conteúdo específico ser obedecido por um grupo determinado”.

Para Foucault, o poder é menos uma propriedade que uma estratégia, e seus efeitos não são atribuídos a uma apropriação, mas a disposições, a manobras, táticas, funcionamentos; ele se exerce mais do que se possui, não é o privilégio adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de conjunto de suas posições estratégicas.

O poder para Foucault (1995) coloca em questão relações entre indivíduos. “Não devemos nos enganar: se falamos do poder das leis, das instituições ou das ideologias, se falamos de estruturas ou mecanismos de poder das leis, das instituições ou das ideologias, se falamos de estruturas ou mecanismos de poder, é apenas na medida em que supomos que ‘alguns’ exercem um poder sobre os outros” (FOUCAULT, 1995).

Assim, para Foucault (1995), viver em sociedade é, de qualquer maneira, viver de modo que seja possível alguns sobre a ação dos outros.

Ao falarmos de política e poder, temas extremamente interligados, buscamos entender o conceito de autoridade. Se recorremos ao dicionário Aurélio, temos autoridade como poder legítimo, direito de mandar.

Segundo Paulo Nunes, economista, professor e consultor de empresas, é possível definir dois tipos diferentes de autoridade: autoridade jurídica, imposta por obrigação aos subordinados e que pode ser dividida em autoridade formal (formalizada através da estrutura organizacional) e autoridade operativa (definida pelos procedimentos internos da organização) e autoridade moral, surgida naturalmente da superioridade de conhecimentos ou know-how de deterninado indivíduo, a qual pode ser dividida em autoridade técnica e em autoridade pessoal.

NUNES, Paulo. Fonte: (http://www.knowhow.net/cienconempr/gestao/autoridade.htm).




14. Confronte as ideias apresentadas no texto acima com sua resposta anterior. Registre as semelhanças e diferenças.




Análise sociológica do Estado

O PARADOXO DO ESTADO

No século XVIII, teóricos contratualistas, destacando-se dentre eles Rousseau e Hobbes, argumentaram que o homem, a princípio, se encontraria em um “estado de natureza”, no qual ele seria completamente livre e com o dever único de sobreviver. As relações entre as pessoas seriam regidas então pela “lei do mais forte”. Mas, como nenhum homem tem força suficiente para garantir sempre o seu bem-estar, ele procura então estabelecer acordos com outros homens, que permitam a sua coexistência pacífica. Dito de outra forma, a partir de um momento, os obstáculos à sobrevivência no estado de natureza ultrapassam as possibilidades de cada pessoa, obrigando-a a unir-se em conjunto. Da competição natural, passa-se então para a cooperação, criada a partir do pacto entre os homens, ou “Do contrato social”, como apresenta Rousseau no título de sua principal obra. Nesse contrato, cada homem abdicaria sua autonomia individual em benefício da estabilidade da vida em comum. Sua segurança e suas liberdades, que agora recebem o nome de direitos, passam a ser garantidas por uma entidade única, que monopolizará o uso da força: o Estado.

O Estado deve concentrar o poder da sociedade em que se encontra. Para tanto, ele tem de ser o único responsável naquele território por três atividades essenciais: a administração dos negócios de interesse coletivo, com os indivíduos e com outros Estados; a elaboração das leis que regem a sociedade e o próprio funcionamento do Estado; e a aplicação dessas leis de maneira homogênea a todos os homens, garantindo a justiça.

Tais leis darão origem à divisão do Estado em três poderes, respectivamente: Executivo, Legislativo e Judiciário, que hoje é adotada em quase todos os países do mundo.

O Estado, na administração dos negócios de interesse coletivo, assume a educação, saúde, segurança, economia, etc. Ele se organizou, burocratizou, inchou e também se deixou corromper. Surgiram, então, as filas nos postos de saúde, a educação de má qualidade, a violência desenfreada, a impunidade em todos os níveis, a falta de perspectiva para a população mais pobre. O Estado torna-se ausente.

O cidadão passa a não mais acreditar que o Estado possa lhe garantir suas necessidades sociais básicas. A ausência do Estado nas comunidades menos favorecidas – seja através da polícia, das escolas ou até da atuação de política mais engajada. São necessárias políticas de reorganização urbana que recuperem áreas pobres ou torne-se novamente presente no imaginário dos indivíduos.

15. Qual o papel do Estado nos dias de hoje?

16. O que significa a “ausência do Estado”?

O que nos dizem os clássicos a respeito do Estado

Para Durkheim, o Estado é menos um órgão executivo, que age, do que deliberativo, que pensa: “o Estado é um órgão especial encarregado de elaborar certas representações que valem para a coletividade” (DURKHEIM, 1983, p. 46).

Nesse sentido, o crescimento do individualismo não implica a diminuição do papel do Estado: pelo contrário, é justamente o Estado que legitima e garante o individualismo, que afirma e faz respeitar os direitos do indivíduo. "Longe de ser antagonista do Estado, nossa individualidade moral [é], ao contrário, produto do Estado" (Durkheim, 1983, p. 63). De fato, ele "[...] tende a assegurar a individuação mais completa permitida pelo estado social. Bem longe de ser o tirano do indivíduo, ele é quem redime o indivíduo da sociedade" (Idem, p. 63). Por outro lado, não se pode considerar, na ótica dos socialistas, o Estado como "uma simples peça da máquina econômica", isto é, como um prestador de serviços para a economia (Idem, p. 66). O papel do Estado é fundamentalmente moral, ele é o "órgão por excelência da disciplina moral" (Idem, ibidem). Em vez de nos afastar do Estado, estamos nos tornando cada vez mais dependentes dele, na medida em que "[...] ele tem por encargo chamar-nos ao sentimento da solidariedade comum” (DURKHEIM, 1995, p. 218).

RAUD-MATTEDI, Cécile. A constrção social do mercado em Durkheim e Weber:Análise do papel das instituições na sociologia e economia clássica, São Paulo: Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 20, n.57, fev. 2005

Para Marx o Estado é o instrumento na qual uma classe domina e explora outra classe. O Estado seria necessário a proteger a propriedade e adotaria qualquer política de interesse da burguesia, seria o comitê executivo da burguesia. No manifesto comunista, Marx e engels, explicitam que o poder político, adequadamente assim denominado, é meramente o poder organizado de uma classe para oprimir a outra.

LENINE, Vladimir Ilitch. O Estado e a Revolução: A doutrina do Marxismo sobre o Estado e as Tarefas do Proletariado na Revolução. Petrogrado: Jizn i Znanie, 1917. In. Obras Escolhidas de Lenine. São Paulo: Editora Avante. 1977

"O Estado não é, de forma alguma, uma força imposta, do exterior, à sociedade. Não é, tampouco, "a realidade da Idéia moral", "a imagem e a realidade da Razão como pretende Hegel. É um produto da sociedade numa certa fase do seu desenvolvimento. É a confissão de que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna, se dividiu em antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se. Mas, para que essas classes antagônicas, com interesses econômicos contrários, não se entre devorassem e não devorassem a sociedade numa luta estéril, sentiu-se a necessidade de uma força que se colocasse aparentemente acima da sociedade, com o fim de atenuar o conflito nos limites da "ordem". Essa força, que sai da sociedade, ficando, porém, por cima dela e dela se afastando cada vez mais, é o Estado".

Eis, expressa com toda a clareza, a idéia fundamental do marxismo no que concerne ao papel histórico e à significação do Estado. O Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes. O Estado aparece onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que as contradições de classes são inconciliáveis. O Estado aparece onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que as contradições de classe são inconciliáveis.

Para Max Weber, embora o Estado detenha “o monopólio da força legítima”, implica também não só a força mas também a sua legitimação, que vai desde a forma de designação dos seus órgãos até à resolução mínima dos problemas que lhe são socialmente colocados. O Estado é um aparelho que exerce o poder e a autoridade. Ainda Max Weber, quando se refere ao Estado «considera-o uma associação de dominação política, “quando e na medida, em que sua subsistência e a vigência de suas ordens, dentro de determinado território geográfico, estejam garantidas de modo contínuo mediante ameaça e a aplicação de coação física por parte do quadro administrativo. Uma empresa com caráter de instituição política denominamos Estado, quando e na medida em que seu quadro administrativo reivindica com êxito o monopólio legitimo da coação física para realizar as ordens vigentes.”

HERMENEGILDO, Reinaldo Saraiva. Estado e Soberania: que paradigma? In: Revista Militar. 06 jun. 2006. Disponível em: http://www.revistamilitar.pt/modules/articles/article.php?id=74

Qual a concepção de Estado para Durkheim, Marx e Weber?


SISTEMATIZANDO

A dessacralização da política: a política do cotidiano

Acompanhe o texto a seguir e organize as suas ideias para a viabilização de um projeto de atuação na sociedade.

A ÉTICA E A POLÍTICA DO COTIDIANO

Viver em sociedade exige regras dos atores envolvidos. Não se discute mais a necessidade das regras, das normas e das leis. Todos sabemos que, para viver em sociedade, elas são primordiais. Mas parece que estamos nos esquecendo disso.

A sociedade, cada vez mais, valoriza o individualismo. No Brasil, o “jeitinho brasileiro, de querer levar vantagem em tudo”, está cada vez mais em uso, em evidência.

Parece contraditório: a sociedade valorizar o individualismo, o coletivo favorecer o individual. O problema é que nos esquecemos de que a sociedade é o coletivo das ações individuais e que ela age ou exerce influência nos indivíduos, numa relação dialética. Tudo fica parecendo norma ou normal. Pequenas atitudes corruptivas, no dia a dia das pessoas, tornam-se coisas normais aos olhos da coletividade, afinal de contas, “todos fazem assim”!

Quando ultrapassamos as atitudes individuais e transportamo-nos para os escândalos de corrupção dos deputados, senadores e empresários, que envolvem a população como um todo, ficamos imediatamente indignados, mas basta o tempo passar para esquecermos ou resignarmos diante dos fatos. Parece que o inconsciente das pessoas aceita a corrupção, porque, no dia a dia, ações corruptivas estão impregnanadas nos afazeres de cada um. Desde o desrespeito às filas das bilheterias do cinema ou teatro à sonegação de impostos. Quase todos nós desejamos o privilégio, o levar vantagem sobre os outros.

Formato de pessoas em vários formatos

Nossa sociedade hoje educa para a injustiça, para a falta de ética, para o individualismo exacerbado, para a impunidade, para o autoritarismo camuflado de democracia e, consequentemente, para a violência. O paradoxo encontra-se no discurso de justiça, de resgate da ética, da denúncia da impunidade e, principalmente, no discurso democrático.

Poderíamos nos perguntar: quem educa assim? A resposta é fácil: a sociedade de um modo geral. Mas quem é a sociedade? Se cada um de nós, individualmente, cada um na suas individualidade (e não individualismo) constrói a sociedade, então por que somos assim? Afinal de contas, qual sociedade queremos?

Quando fazemos essa pergunta, a maioria das pessoas discorre sobre uma ideia de sociedade perfeita e idealizada, em que prevalece o bem comum, a justiça e o relacionamento amigável e saudável entre as pessoas.

Esquecemos das nossas atitudes cotidianas que, aparentemente inconscientes, mostram o contrário do que desejamos ou discursamos. Não nos indignamos, não nos questionamos, por exemplo, que comportamentos temos, no nosso dia a dia, que levam nossa sociedade a ser como é. Agimos “no automático”. Em consequência disso, não avaliamos nossas pequenas atitudes, aparentemente inofensivas individualmente, mas extremamente agressivas na coletividade.

Ações políticas, ecológicas e democráticas são as mais simples de serem visualizadas. Para o indivíduo, política é coisa de deputados / senadores, por isso não considera ou percebe que as relações de convivência são, a todo momento, atitudes políticas. Quase sempre, não percebemos que somos autoritários e egoístas, mesmo que o discurso de democracia nas relações esteja somente na ponta da língua.

Ações ecológicas são ações para as grandes florestas, rios, mares etc. Esquecemos, mais uma vez, das nossas atitudes cotidianas em que jogamos papéis no chão, varremos o lixo da calçada para a ‘boca de lobo’ ou bueiros das ruas, consumimos excessivamente sacolas plásticas, misturamos todo nosso lixo sem nenhuma preocupação com a reciclagem, entre tantas outras.

A mudança que tanto almejamos para a sociedade não vem da vontade benevolente de algum governante ou de deputados e senadores bem-intencionados. Vem, sim, das nossas atitudes, as mais simples e corriqueiras.

O filósofo australiano Peter Singer afirma que “num primeiro momento, pequenas infrações parecem não ter importância, mas ao longo do tempo, a moral da comunidade é afetada em todas as esferas... levando a sociedade a perder o controle de si mesma, onde as pessoas não têm mais a noção exata de certo e errado”.

Para o filósofo, a “ética é um exercício diário, que precisa ser praticado no cotidiano”. Da mesma forma, a democracia. Não nascemos sabendo exercer a democracia, precisamos aprende-la, precisamos exercitá-la em todas as esferas das nossas relações: na família (principalmente), na escola, no trabalho, na convivência com amigos e também com as pessoas estranhas.

A ética e a democracia se afirmam numa sociedade se forem exercidas no dia a dia das atitudes das pessoas. “Se uma pessoa não respeita o próximo, não cumpre as leis de convivência, não paga seus impostos ou não obedece às leis de trânsito, ela não é ética”. Para Peter Singer, essas atitudes provocam um círculo ético, ou seja, uma ação interfere a outra, e os valores morais perdem força, vão se diluindo, perdendo a importância. Para uma sociedade justa e democrática, o círculo ético é essencial, as pessoas, nas suas atitudes cotidianas, são imprescindíveis para efetiva-lo positivamente.

Ele ainda afirma que o primeiro passo para mudar uma sociedade corrompida acontece quando os cidadãos são estimulados a respeitar as leis básicas, pois assim passam a respeitar a si próprios, o próximo e a cidadania.

Quer ser ético no seu cotidiano? Não espere o outro começar, comece você mesmo pelo mais simples. Cumprimente as pessoas, diga bom-dia, seja educado com quem convive.

18. Quando observamos a realidade da nossa sociedade atual, nos perguntamos: “o que podemos fazer para transformá-la, melhorá-la?” Muitas vezes, ficamos apáticos, dizendo que não há nada que se possa fazer! O texto anterior nos sugere uma ética e política do cotidiano, ou seja, atitudes do nosso dia a dia. Descreva que atitudes e posturas podemos tomar no nosso cotidiano da sala de aula, da escola, da família, das relações de amizade, de todos os espaços que frequentamos e explique como essas atitudes poderão contribuir para uma possível transformação da realidade.


quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ideologia, classes sociais e poder

COLÉGIO NOTRE DAME DE LOUDES
COLEÇÃO PITÁGORAS
SOCIOLOGIA – SEGUNDO ANO
SEGUNDO BIMESTRE



Unidade 2 - Ideologia e a indústria cultural

Ideologia, classes sociais e poder



DESAFIANDO
Organizados em grupos, discutam e respondam às seguintes questões:

1. Observe o mundo em que vivemos. O que vocês veem, no mundo, que não lhes agrada e que gostariam de transformar?




Pensem na seguinte situação: vocês tem de comprar um carro e estão em dúvida em relação à marca a escolher. Suas necessidades são básicas: vocês precisam do carro para transporte diário e para lazer. A questão financeira não está em jogo, não é o problema. Duas opções lhes são apresentadas. A primeira, um carro “mil”, e a segunda, um importado.

2. Qual opção vocês fariam? Que motivos levam vocês a fazerem essa escolha?




3. Qual a diferença, para a nossa sociedade hoje, entre comprar um carro “mil” ou um importado?

Façam a leitura atenta do texto a seguir. Depois, respondam às questões propostas.




IDEOLOGIA


Ideologia é outro dos conceitos básicos de Sociologia que tem várias origens e interpretações. Em Marx ela assume um caráter essencialmente negativo: é a falsa consciência. Para ele, ideologia é qualquer formulação teórica das relações sociais que não tenha por base a produção material. Em outras palavras, a ideologia para Marx é resultado da percepção incompleta do funcionamento da sociedade, o que faz com que tomemos como imprescindível uma ordem de coisas que não o é, acreditando ser original uma situação que é na verdade um efeito, uma conseqüência do estado de alienação em que se encontram os indivíduos. Só a consciência é capaz de apreender o que realmente determina a organização social, e a partir daí orientar a ação das pessoas. Outros autores preferem definir a ideologia de maneira mais genérica, como todo conjunto organizado e coerente de idéias que servem de parâmetros para a conduta individual ou coletiva. Toda ideologia implicaria portanto numa interpretação da realidade a partir de uma posição social específica, com o intuito de justificar as decisões que são tomadas a partir de lá. Em linhas gerais a ideologia é uma teoria que valoriza arbitrariamente algumas idéias em detrimento de outras, seguindo exclusivamente a perspectiva de seu formulador. Isto explica porque o uso do termo ideologia é mais freqüentemente usado no cenário político, onde as decisões e ações precisam ser sustentadas por argumentos fortes e consistentes. Quando dois partidos assumem posições diferentes ou mesmo conflitantes frente a um tema qualquer, geralmente isso ocorre por diferenças ideológicas entre eles. Cada partido tem um conjunto de valores e interesses que acredita ser mais desejável, tanto para seus membros para a população como um todo. A ideologia é um com freqüência um reflexo da ausência de consenso acerca de um problema. Onde as decisões não obedecem critérios claros e reconhecidos por todos, cada pessoa tende a se comportar seguindo as suas convicções, a sua maneira de ver o mundo. Surge a ideologia quando diversas pessoas se unem sob convicções comuns, e dão a estas uma formulação explícita. Nesta caso podemos classificar qualquer religião como uma ideologia, assim como doutrinas não religiosas tais quais o fascismo, o nazismo, o liberalismo ou o socialismo. São interpretações parciais da vida social que pretendem ser aplicadas a sua totalidade. A noção de ideologia pode ser entendida também como uma crença em valores específicos de um grupo, que respondam as questões enfrentadas por esse grupo na sua sobrevivência. É uma doutrina, um código de conduta. Em condições que tenha alguma liberdade de escolha, o indivíduo irá agir de acordo com os seus princípios, com o que considera bom ou ruim, o que limitará tanto os fins quanto os meios de sua ação. As ideologias estão portanto presente em todas as sociedades, podendo ou não ser conflituosas. Isto dependerá dos próprios ideais que ela contiver, e do contexto social em que ela se encontrar, isto é de sua interação com outros códigos de conduta presentes na sociedade em questão.

VOLTAIRE; DIDEROT, Denis; CHAUÍ, Marilena. Dicionário filosófico. São Paulo: Nova Cultural, 1988. Disponível em: http://mico.hdfree.com.br/texto_dicionario_politico.htm#ideologia

4. Explique o que é ideologia para Marx.


5. Qual a definição mais genérica para ideologia?


6. Retornem as questões 1, 2 e 3 e verifiquem o que há de ideológicos nas respostas. Registre sua conclusão.

Saiba mais sobre Ideologia, alienação e sociedade de consumo


IDEOLOGIA, ALIENACAO E SOCIEDADE DE CONSUMO





Aprenda mais sobre a Ideologia



A Ideologia segundo Marx






MARILENA DE SOUZA CHAUÍ



(1941- )







É professora de Filosofia na Universidade de São Paulo e uma das mais prestigiadas intelectuais brasileiras, com presença atuante no debate político nacional e na construção da democracia brasileira. São freqüentes os seus artigos na imprensa, bem como sua participação em congressos, conferências e cursos, no país e no exterior.






CONFRONTANDO



Para construirmos conhecimento, necessitamos confrontar nossas ideias e convicções. Leia o texto a seguir, trecho do livro Convite à Filosofia, de Marilena Chauí, publicado pela Editora Ática. Depois, confronte as ideias nele apresentadas com as observações e análises elaboradas por vocês nas situações que foram propostas anteriormente.



Ideologia e alienação



A alienação social se exprime numa “teoria” do conhecimento espontânea, formando o senso comum da sociedade. Por seu intermédio, são imaginadas explicações e justificativas para a realidade tal como é diretamente percebida e vivida.



Um exemplo desse senso comum aparece no caso da “explicação da pobreza, em que o pobre é pobre por sua própria culpa (preguiça, ignorância) ou por vontade divina ou por inferioridade natural. Esse senso comum social, na verdade, é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita pelos pensadores ou intelectuais da sociedade - sacerdotes, filósofos, cientistas, professores, escritores, jornalistas, artistas -, que descrevem e explicam o mundo a partir do ponto de vista da classe a que pertencem e que é a classe dominante de sua sociedade. Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as idéias de uma das classes sociais - a dominante e dirigente - tornam-se o ponto de vista e a opinião de todas as classes e de toda a sociedade.



A função principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dar-lhes a aparência de indivisão e de diferenças naturais entre os seres humanos. Indivisão: apesar da divisão social das classes, somos levados a crer que somos todos iguais porque participamos da idéia de “humanidade”, ou da idéia de “nação’ e “pátria”, ou da idéia de “raça”, etc. Diferenças naturais: somos levados a crer que as desigualdades sociais, econômicas e políticas não são produzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais dos talentos e das capacidades, da inteligência, da força de vontade maior ou menor, etc.



A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as idéias.



Por exemplo, a ideologia afirma que somos todos cidadãos e, portanto, temos todos os mesmos direitos sociais, econômicos, políticos e culturais. No entanto, sabemos que isso não acontece de fato: as crianças de rua não têm direitos; os idosos não têm direitos; os direitos culturais das crianças nas escolas públicas é inferior aos das crianças que estão em escolas particulares, pois o ensino não é de mesma qualidade em ambas; os negros e índios são discriminados como inferiores; os homossexuais são perseguidos como pervertidos, etc.



A maioria, porém, acredita que o fato de ser eleitor, pagar as dívidas e contribuir com os impostos já nos faz cidadãos, sem considerar as condições concretas que fazem alguns serem mais cidadãos do que outros. A função da ideologia é impedir-nos de pensar nessas coisas.



CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2001. Disponível em: http://eumatil.vilabol.uol.com.br/chaui.htm



7. Qual é o papel principal da ideologia?



8. Qual a finalidade da produção ideológica da ilusão social?



9. Qual é o lugar social que você ocupa na sociedade brasileira?



Após a leitura do texto da Marilena Chauí, como você percebe a influência do local que ocupa na sociedade sobre a maneira de pensar?






ESCOLA DE FRANKFURT





É o nome dado a um grupo de filósofos e cientistas sociais de tendências marxistas que se encontram no final dos anos 20. A Escola de Frankfurt se associa diretamente à chamada teoria crítica da sociedade. Deve-se à Escola de Frankfurt a criação de conceitos como indústria cultural e cultura de massa.



Veja alguns representantes da Escola de Frankfurt.







Theodor Adorno (1903 - 1969)





Jürgen Hubermas (1929 - )





Walter Benjamin (1892 - 1940)



SISTEMATIZANDO



Agora você já tem condições de organizar suas observações, análise e conceitos. Então, vejamos o que dizem autores clássicos sobre indústria cultural e sociedade de consumo. Observe que não nos prenderemos aos clássicos, mas, sim, aos autores da Escola de Frankfurt, como Adorno.



Os meios de comunicação e a indústria cultural



Indústria cultural é o nome genérico que se dá ao conjunto de empresas e instituições cuja principal atividade econômica é a produção de cultura, com fins lucrativos e mercantis. No sistema de produção cultural, encaixam-se a TV, o rádio, os jornais e as revistas, entretenimento em geral; que são elaborados de forma a aumentar o consumo, modificar os hábitos, educar, informar, podendo pretender ainda, em alguns casos, ter a capacidade de atingir a sociedade como um todo.




A expressa indústria cultural foi utilizada pela primeira vez pelos teóricos da Escola de Frankfurt, theodor Adorno e Max Horkheimer no livro Dialektik der Aufklärung Dialética do esclarecimento, no Brasil, ou Dialética do Iluminismo, em Portugal). Nessa obra, Adorno e Horkheimer discorrem sobre a reificação da cultura por meio de processos industriais.




10. Faça uma relação dos meios de comunicação que você conhece e destaque aqueles que são utilizados pela indústria cultural.



THEODOR LUDWIG WIESENGRUND-ADORNO



(1903 - 1969)







Foi filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. Foi membro da Escola de Frankfurt, juntamente com Max Horkheimer, Walter Benjami, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e outros.



Adorno chama de indústria cultural ao que anteriormente concebia-se como cultura de massas. Não é um tipo de cultura que surja espontaneamente do povo; tampouco o que se pode conceber como cultura popular. A indústria cultural é uma produção dirigida para o consumo das massas segundo um plano preestabelecido, seja qual for a área para a qual essa produção se dirija. Em outras palavras, deve-se ter em mente que há uma estreita inter-relação entre a produção e o consumo, a primeira determinando o deve ser consumido e vice-versa. Em termos culturais, essa inter-relação faz com que aquilo que é culturalmente produzido assemelhe-se a qualquer produto industrializado, incluindo toda uma estratégia de marketing objetivando levar esse produto ao público consumidor. Para a indústria cultural, tanto faz que esse produto seja um espetáculo lírico difundido pela mídia eletrônica globalizada ou um show de dupla sertaneja, como outro produto qualquer, que tenha gerado nas massas a necessidade de consumo. O que importa é que esse produto chegue às massas. Toda essa estratégia de divulgação e consumo propicia a larga manipulação também dos meios de comunicação pelos produtores de marketing, os quais, pelo próprio métier, têm o poder de influenciar os meios de comunicação, a fim de criar, no público-alvo, novas necessidades de consumo de, também, novos produtos.



Disponível em: http://www.fecap.br/Arquivos/Extensão_Rev_Liceu_On_Line/adorno.htm. Acesso em 18 mar 2007. (Fragmento)








Propaganda e sociedade de consumo











Visto a indústria cultural, vamos agora aprofundar a ideia de sociedade de consumo. Acompanhe o texto a seguir.



SOCIEDADE DE CONSUMO



MARIA LÚCIA DE ARRUDA ARANHA



CRIANDO NECESSIDADES



Para ajudar nas mudanças dos hábitos da população, as indústrias, empresas de produção de bens, tais como alimento ou vestuário, contam sempre com as empresas de prestação de serviços, mais especificamente com os meios de comunicação de massa (jornais, redes de televisão e emissoras de rádio). Essas empresas têm o poder de criar necessidades de uso de novos produtos, sobretudo por meio das propagandas. A associação entre esse modelo de produção em série, adotado peIas indústrias, e as empresas de prestação de serviços caracterizam uma nova sociedade: a sociedade de consumo. Esse termo designa a atual sociedade moderna, urbana e industrial, dedicada à produção e aquisição crescentes de bens de consumo cada vez mais diversificados.



Para a sobrevivência dessa sociedade é essencial que sejam criadas necessidades de uso de novos produtos, pois, logo que um produto aparece no mercado, ele deve ser consumido intensamente e em seguida substituído por outro. Contudo. como não conhecemos tal produto nem estamos habituados a usá-Io. e muitas vezes nem sequer necessitamos dele, é preciso que se faça criar em cada um de nós a necessidade de consumi-lo (...)





Para adquirir um bem, precisamos achar realmente importante possuí-lo. Nesse processo, a formação da opinião pública realizada pelos meios de comunicação, comandados por um número pequeno de pessoas que decidem o que vamos escolher, possuir e usar - colabora de forma vital para a criação de necessidades de uso de novos produtos. Assim, não é a tecnologia que atende às necessidades, como os meios de comunicação de massa geralmente nos fazem crer. e sim as necessidades é que são criadas para atender à crescente produção e à elaboração cada vez mais diversificada dos bens de consumo. Esse processo de formação de opinião ocorre quando a opinião - que cada um possui como coisa exclusiva e genuína -,é induzida, ou influenciada, pelos jornais, tevês e outras formas de comunicação de massa.



Então, em que a produção de bens de consumo difere da produção artesanal? As diferenças não ficam só nas mudanças dentro da fábrica, nas mudanças do artesão para o operário, nas mudanças do poder de decisão do artesão para o proprietário da indústria. Há também uma mudança no usuário final do produto, ou seja, no consumidor.



Ao adquirir um bem produzido em série, o consumidor nada sabe sobre quem o criou e não tem com ele vínculo cultural ou afetivo, como ocorreria, por exemplo, com um objeto de arte.





FELICIDADE VERSUS SATISFAÇÃO DAS NECESSIDADES





O ser humano sempre buscou a felicidade: as empresas, o lucro. Será que elas vendem felicidade? É isto que os meios de comunicação de massa parecem nos dizer: “quem tem mais, é mais feliz”



Paralelamente, dados de uma curiosa pesquisa revelam que as classes detentoras de maiores posses, em qualquer sociedade moderna, estão mais satisfeitas com as suas vidas do que as classes menos ricas.



A mesma pesquisa. Entretanto, também mostra que nos países ricos, essas classes detentoras de maiore posses não estão mais satisfeitas do que as classes mais ricas de muitos países pobres; nem tampouco estão mais satisfeitas do que as classes mais ricas estiveram em um passado menos rico.



Em outras palavras, a satisfação trazida pelo dinheiro parece vir não do fato de simplesmente possuí-Io, mas sim de possuir mais do que os outros. Numa sociedade de consumo, ter dinheiro significa poder consumir e é sinônimo de busca de felicidade e status.



A compra de um produto tido como importante pelo grupo social ao qual o consumidor pertence produz uma imediata sensação de prazer e realização e geralmente confere status e reconhecimento a seu proprietário. Também, conforme a novidade vai-se desgastando, o vazio ameaça retornar. Quando isso ocorre, a solução padrão do consumidor é se concentrar numa próxima compra promissora, na esperança de que a satisfação seja mais duradoura e mais significativa.



A sensação de vazio que se apossa do consumidor é um dos dois aspectos do individualismo e isolamento que o caracteriza: contrapondo-se ao vazio interior,



está a aparência de segurança e de realização.



Esse mundo fantástico de satisfação das necessidades de aceitação social, de realização pessoal e mesmo de conforto físico, mediante o consumo constante, é elaborado pelos meios de comunicação de massa e pela indústria de propaganda. Assim, um indicador claro do sucesso do consumismo é a propaganda.



Essa verdadeira indústria foi uma das que tiveram o mais rápido crescimento durante a última metade do século XX: os gastos mundiais totais com propaganda aumentaram de US$ 39 bilhões em 1950 para US$ 237 bilhões em 1988, crescendo até mesmo mais rapidamente que a produção econômica mundial no mesmo período.



Nesse período, os gastos mundiais per capita com propaganda triplicaram: de US$ 15 para US$ 46. Nos Estados Unidos, onde os gastos com propaganda são imensos, houve um aumento de US$ 200 para US$ 500.



Com tal quantidade de propaganda disponível para ser vista, lida e ouvida, os adolescentes norte-americanos assistem 22 horas de televisão por semana, sendo expostos em média de 3 a 4 horas semanais de propaganda na tevê, acumulando 100 mil anúncios entre seu nascimento e sua graduação no estágio equivalente à oitava série do primeiro grau. Essa informação preocupa os educadores, pois, ao contrário das atividades lúdicas infanto-juvenis, a passividade exigida pela tevê não prepara a criança para o aprendizado.



Como numa sociedade de consumo sempre haverá por mais que consumamos um novo produto, ou uma nova tecnologia a ser lançada. melhor do que a que acabamos de consumir, somos obrigados a conseguir mais dinheiro para satisfazer nossas novas “necessidades". É essa a engrenagem principal que faz a economia girar e que torna ilusória a busca da felicidade por meio do consumo.



Isso tudo nos faz questionar: de quem é verdadeiramente a necessidade que estamos atendendo como consumidores?





SOCIEDADE DE CONSUMO: SIM OU NÃO?





À primeira vista a sociedade de consumo parece ser a sobreposição de duas realidades. Uma mostra os produtos ligados à boa qualidade de vida, tais como as vacinas, os antibióticos, o tratamento da água e do esgoto, os marcapassos cardíacos e o aquecimento de ambientes nos países com inverno rigoroso. A outra mostra a poluição do ar e das águas, principalmente nas regiões mais industrializadas, a mão-de-obra muito barata nos países do terceiro mundo. como o Brasil, onde a maior parte da população trabalha desde a infância até a morte, sem higiene. Saúde, abrigo e alimentação adequados à dignidade do ser humano.



Essas duas realidades dividem as opiniões acerca da sociedade de consumo. Uns a defendem, outros se voltam contra ela.



Para que possamos nos definir diante dessas duas realidades, precisamos fazer algumas considerações e precisamos refletir sobre os efeitos dessa sociedade.



Estaríamos exaurindo os recursos energéticos e os recursos naturais, como a água, e poluindo o ar apenas para produzir os bens supérfluos dessa sociedade de consumo. Estaríamos, então, exaurindo riquezas nos excessos de consumo, ignorando a elaboração, transporte e distribuição dos bens e serviços de primeira necessidade aos carentes. Responder a essas dúvidas é posicionar-se diante da sociedade de consumo.





Parece que um número cada vez maior de pessoas acha que sim: que estamos sacrificando uma maioria para satisfazer os excessos de um grupo menor de indivíduos. Hoje em dia há em todo o mundo muitas organizações civis que se dedicam à elaboração e execução de programas para conscientizar as populações das necessidades emergenciais de se diminuir o consumo e a poluição; de se lutar pela igualdade entre os povos e contra as diferenças sociais num país: e também de se lutar pela preservação do meio ambiente. Essas organizações, em última análise, estão envolvidas na luta pela sobrevivência, dignidade e liberdade de todos os seres humanos, tanto daqueles que foram excluídos do consumo, quanto dos consumidores. .



No entanto, parece impossível desmantelar um sistema tão poderoso quanto esse, formado pela aliança entre a comunicação de massa e as indústrias.



O que dá força à sociedade de consumo, porém, é o fato de seus valores estarem presentes em cada um de nós, representados pela abundância e pela novidade(...)





(Texto extraído para fins didáticos de ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. Editora Moderna: São Paulo, 1993)








Após a leitura e discussão do texto, responda às seguintes questões:



11. O que é sociedade de consumo?





12. “Não é a tecnologia que atende às necessidades, como os meios de comunicação de massas geralmente nos fazem crer, e, sim, as necessidades é que são criadas para atender à crescente população e à elaboração cada vez mais diversificada dos bens de consumo”. Explique esta afirmação.





13. Qual a diferença fundamental da produção de bens de consumo para a produção artesanal?





14. O texto propõe uma reflexão: de quem é verdadeiramente a necessidade a que estamos atendendo como consumidores?





Mídia, cultura e política no Brasil



Ao se abordar a temática da indústria cultural no Brasil, obrigatoriamente tem-se de retratar o papel da televisão brasileira. Torna-se, então, pertinente acompanharmos o trecho do texto de Marco Antonio Bettine de Almeida, “Aspectos teóricos da indústria cultural e a televisão no Brasil”.





A TELEVISÃO COMO CONSOLIDAÇÃO DA INDÚSTRIA CULTURAL NO CENÁRIO BRASILEIRO



Foi com os militares que tivemos um amplo avanço da indústria cultural no Brasil (ALMEIDA e GUTIERREZ, 2005), através da incorporação e importação de todo o aparato tecnológico ligado às artes audiovisuais, principalmente a televisão. Esta é claro, já existia há algum tempo no país, a novidade daquela época era seu poder e alcance, em grande parte determinada por sua organização verdadeiramente moderna e pelo irrestrito apoio estatal a seu crescimento que, de tão intenso, chegou a provocar profundo impacto tanto no modo de ser da experiência cultural – afetando, em alguns casos, o destino de obras de outros gêneros (teatro, artes plásticas, músicas, poesia) –, quanto na própria situação material do produtor de cultura.



No teatro, na música e na poesia a arte audiovisual se fazia presente, com textos fotográficos, dinâmicos e urbanos, com sons que descreviam histórias, fatos e acontecimentos em imagens, com peças que esboçavam o fascínio, as cores e o Brasil. A televisão influenciou todo o ramo artístico, era o novo meio de comunicação, com uma abrangência assustadora, levando à incorporação de artistas e técnicos que viam na televisão uma nova estética, um novo meio de fazer arte. Um novo meio de reprodutibilidade técnica, já que não necessitava mais do palco para fazer teatro, existia agora a reprodução das imagens em forma de tela.



A indústria cultural através da televisão incorporou a arte nacional-popular. O mercado introduziu na sua programação as expressões nacionais-populares – poesia marginal, cinema novo, teatro do oprimido, Centro Popular de Cultura, UNE-volante, tropicália – e transformou-as, através do processo de colonização – num mercado de consumo ligado ao nacionalismo e desenvolvimentismo com propagandas governamentais. O exemplo clássico deste nacionalismo sem engajamento, juntamente com o afastamento da estética e a desistência de algo inovador foram as novelas.





"Neste processo de industrialização todos os mecanismos são transformados em mercadorias, a emancipação feminina, a liberdade sexual, todos estes discursos nascidos dos artistas de esquerda perderam o seu caráter subversivo na era da indústria cultural. Esse aproveitamento conservador do sexo pelo mercado coexiste com o velho conservadorismo a glorificar a tradição, família e propriedade. Vivendo as tradições do passado e a apologia da liberação sexual nas telenovelas" (RIDENTI, 1999, p.238).



Estes são motivos suficientes para demonstrar a força e a importância da televisão no Brasil. As novelas foram a grande invenção nacional. Capazes de prender mais de 70% dos telespectadores, com seu linguajar cotidiano, temas da vida privada e unicidade cultural. As novelas propiciaram tal conjunção com o público que as mulheres aprenderam a se vestir como os personagens e as adolescentes aprenderam a querer seus sonhos modernos. Segundo Kornis (2001, p.11) em 1964, quando a história da televisão brasileira começaria, o Brasil tinha 34 estações de TV e 1,8 milhão de aparelhos receptores. Em 1978, já eram 15 milhões de receptores. Em 1987, 31 milhões de televisores se espalhavam pelo País, dos quais 12,5 milhões em cores. Hoje, trata-se do sexto maior parque de receptores instalados no mundo.



Depois de 1980, quando se inicia o processo de redemocratização, segundo Ridenti (1999), há uma ampliação dos bens culturais industrializados, pois se há o fortalecimento da indústria cultural com os militares é no período de abertura política que ela chega ao seu apogeu. Sem a censura os filmes, livros e programas nacionais e internacionais tiveram a possibilidade de serem divulgados amplamente. Com a abertura política ficou mais fácil a penetração dos bens culturais de massa a serem lançados e consumidos pela população.



A abertura política, no começo da década de 1980, propiciou um desenvolvimento vertiginoso da indústria cultural, em função principalmente dos investimentos que já tinham sido realizados durante o regime militar na área das comunicações, sempre sob controle dos órgãos de censura. Porém, é preciso ter presente que enquanto a expressão típica da industria cultural no regime militar caracterizou-se pelo nacional-desenvolvimentismo, a industria cultural na redemocratização e nos períodos subseqüentes foi marcada pela globalização e pelo fim da censura. Estes dois acontecimentos mostraram ser o casamento perfeito para o desenvolvimento da Industria Cultural brasileira, tendo como carro chefe a televisão.





Conclusão



A indústria cultural reflete uma necessidade do capitalismo de coisificar o mundo ao seu redor. Coisifica o homem transformando-o em mercadoria, e ao coisificar o homem transforma todo o produto do trabalho humano em algo a ser comprado. Com a cultura não aconteceu diferente, ela foi transformada em algo a ser vendida. A televisão como projeto tecnológico do capitalismo promoveu a reprodutibilidade técnica da arte e ao mesmo tempo trouxe para si a função de sedimentar a ideologia e o fetichismo da mercadoria. A televisão, em última análise, representa o projeto perfeito da reprodução do sistema capitalista de produção, e, no Brasil, podemos dizer que através da ligação com os militares e sua necessidade de conter os avanços da arte questionadora que sedimentou a arte vendável e a produção comercial em detrimento da arte de contestação e transformação.



REVISTA DIGITAL - Buenos Aires - Año 13 - Nº 121 - Junio de 2008 - http://www.efdeportes.com/efd121/aspectos-teoricos-da-industria-cultural-e-a-televisao-no-brasil.htm acesso em 23/04/2011, 19:10 h (fragmento)



15. A partir do texto apresentado e das reflexões sobre a indústria cultural, pode-se afirmar que a televisão é benéfica ou maléfica para a sociedade brasileira? Discuta com seus colegas e registre suas conclusões.







QUEM CONTROLA A MÍDIA NO BRASIL?





Prof. Dr. JAIR BORIN.Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP)









Mídia é um neologismo criado nos Estados Unidos nos anos 60 para designar o conjunto dos veículos e, por extensão, todo o sistema de comunicação de massa. Ele corresponde à fonética do vocábulo latino media, plural de medium. Seu uso foi difundido no mundo todo e tornou-se sinônimo de um conjunto de processos e serviços desenvolvidos pelos modernos meios de comunicação e por várias empresas que dão suporte a estas atividades. Este sistema, hoje, detém um mercado super importante, que movimenta, só em publicidade, cerca de 340 bilhões de dólares por ano. Embora a maior parte desses recursos movimentados esteja nos Estados Unidos, Japão e Europa Ocidental, o Brasil já figura como um dos grandes sócios deste clube privilegiado.



Em 1997, o bolo do faturamento em publicidade pela mídia brasileira alcançou a cifra recorde de 8,6 bilhões de dólares, segundo os dados apurados por Meio e Mensagem, um veículo especializado que acompanha toda a atividades das agências. Participam da disputa anual deste montante toda a mídia brasileira, mas quem fatura mesmo são apenas uns trinta jornais diários, meia dúzia de revistas de grande porte e, principalmente, as seis redes privadas de televisão do país. As emissoras de rádio são a prima a pobre de todo o conjunto. Segundo os dados apurados, elas acabam ficando com apenas seis por cento do total da publicidade veiculada .



Dentro do segmento das televisões ocorre um fenômeno que não se verifica em nenhum outro país do mundo: ele faturou, em 1997, em torno de 55% do total da publicidade veiculada pela mídia e uma única empresa - a Globo - abocanhou cerca de 65% desse total. A Globo, sozinha, faturou, no ano passado, em torno de US$ 3,5 bilhões em publicidade. Os jornais e revistas faturaram uns 35% do bolo publicitário. As emissoras de rádio só conseguiram cerca de 6% , enquanto os serviços de outdoors e mala-direta ficaram com 4% apenas.





Só um forte movimento de massas poderá reverter o controle que a mídia exerce sobre a informação no Brasil. Um jornalismo de qualidade depende do acesso a uma boa escolaridade e aos direitos fundamentais da cidadania: emprego, casa, saúde, educação de bom nível. Isto só será conseguido com muita luta, pois o governo, os empresários e os grandes proprietários no Brasil querem uma mídia alienante. Eles fazem de tudo para mantê-la assim, a fim de não perder o seu domínio sobre a economia e os seus privilégios.



Disponível em: http://www.sciencenet.com.br/antigo/backup/site_portugues/sciencepress/science_outras/arq_midia.htm



acesso em 23 abr. 2001



16. "Só um forte movimento de massas poderá reverter o controle que a mídia exerce sobre a informação no Brasil." Comente essa afirmação, comparando-a aos conhecimentos adquiridos até aqui.





SINTESE



O momento agora é de síntese das ideias apresentadas na unidade. A partir dos trechos da poesia de Carlos Drummond de Andrade, retome os conceitos na unidade e construa sua própria síntese.



EU ETIQUETA



Carlos Drummond de Andrade









Em minha calça está grudado um nome



Que não é meu de batismo ou de cartório





Um nome... estranho.



Meu blusão traz lembrete de bebida



Que jamais pus na boca, nessa vida,



Em minha camiseta, a marca de cigarro



Que não fumo, até hoje não fumei.



Minhas meias falam de produtos



Que nunca experimentei



Mas são comunicados a meus pés.



Meu tênis é proclama colorido



De alguma coisa não provada



Por este provador de longa idade.



Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,



Minha gravata e cinto e escova e pente,



Meu copo, minha xícara,



Minha toalha de banho e sabonete,



Meu isso, meu aquilo.



Desde a cabeça ao bico dos sapatos,



São mensagens,



Letras falantes,



Gritos visuais,



Ordens de uso, abuso, reincidências.



Costume, hábito, permência,



Indispensabilidade,



E fazem de mim homem-anúncio itinerante,



Escravo da matéria anunciada.



Estou, estou na moda.



É duro andar na moda, ainda que a moda



Seja negar minha identidade,



Trocá-la por mil, açambarcando



Todas as marcas registradas,



Todos os logotipos do mercado.



Com que inocência demito-me de ser



Eu que antes era e me sabia



Tão diverso de outros, tão mim mesmo,



Ser pensante sentinte e solitário



Com outros seres diversos e conscientes



De sua humana, invencível condição.



Agora sou anúncio



Ora vulgar ora bizarro.



Em língua nacional ou em qualquer língua



(Qualquer principalmente.)



E nisto me comparo, tiro glória



De minha anulação.



Não sou - vê lá - anúncio contratado.



Eu é que mimosamente pago



Para anunciar, para vender



Em bares festas praias pérgulas piscinas,



E bem à vista exibo esta etiqueta



Global no corpo que desiste



De ser veste e sandália de uma essência



Tão viva, independente,



Que moda ou suborno algum a compromete.



Onde terei jogado fora



Meu gosto e capacidade de escolher,



Minhas idiossincrasias tão pessoais,



Tão minhas que no rosto se espelhavam



E cada gesto, cada olhar



Cada vinco da roupa



Sou gravado de forma universal,



Saio da estamparia, não de casa,



Da vitrine me tiram, recolocam,



Objeto pulsante mas objeto



Que se oferece como signo dos outros



Objetos estáticos, tarifados.



Por me ostentar assim, tão orgulhoso



De ser não eu, mas artigo industrial,



Peço que meu nome retifiquem.



Já não me convém o título de homem.



Meu nome novo é Coisa.



Eu sou a Coisa, coisamente.



ANDRADE, Carlos Drummond. Eu etiqueta. In: O Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1994. (fragmento)



17. "Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente." Explique os versos de Drummond a partir dos conceitos adquiridos ao longo desta unidade.





Acompanhe a música de Cazuza, Ideologia que fecha essa unidade 2









Ideologia



Cazuza



Composição : Cazuza / Frejat



Meu partido



É um coração partido



E as ilusões



Estão todas perdidas



Os meus sonhos



Foram todos vendidos



Tão barato



Que eu nem acredito



Ah! eu nem acredito...



Que aquele garoto



Que ia mudar o mundo



Mudar o mundo



Frequenta agora



As festas do "Grand Monde"...



Meus heróis



Morreram de overdose



Meus inimigos



Estão no poder



Ideologia!



Eu quero uma pra viver



Ideologia!



Eu quero uma pra viver...



O meu prazer



Agora é risco de vida



Meu sex and drugs



Não tem nenhum rock 'n' roll



Eu vou pagar



A conta do analista



Pra nunca mais



Ter que saber



Quem eu sou



Ah! saber quem eu sou..



Pois aquele garoto



Que ia mudar o mundo



Mudar o mundo



Agora assiste a tudo



Em cima do muro



Em cima do muro...



Meus heróis



Morreram de overdose



Meus inimigos



Estão no poder



Ideologia!



Eu quero uma pra viver



Ideologia!



Pra viver...



Pois aquele garoto



Que ia mudar o mundo



Mudar o mundo



Agora assiste a tudo



Em cima do muro



Em cima do muro...



Meus heróis



Morreram de overdose



Meus inimigos



Estão no poder



Ideologia!



Eu quero uma pra viver



Ideologia!



Eu quero uma pra viver..



Ideologia!



Pra viver



Ideologia!



Eu quero uma pra viver...








Resolução comentada das questões





1. Resposta pessoal.Possibilidades de resposta: Vemos um mundo de guerras, violência, generalizada, corrupção na política, interesses pessoais sobrepondo-se ao coletivo, desigualdade social discrepante, miséria, fome, entre outras coisas.



2. Resposta pessoal. Possibilidade 1: Escolheríamos o carro mil, pois ele satisfaz as nossas necessidades, é mais barato, proporcionando-nos uma economia e também é menos visado pelos assaltantes e seqüestradores, possibilitando uma segurança maior. Possibilidade 2: Optaríamos pelo importado, pois ele representa status e poder na sociedade, como também mais segurança na dirigibilidade, pois é mais sofisticado tecnologicamente.



3. O importado representa poder e status na sociedade e o carro “mil” é apenas um carro mediano para os valores da sociedade. O importado provoca uma respeitabilidade que o carro mil não provoca por existirem diversos outros carros mais luxuosos.



4. Em Marx, ela assume um caráter essencialmente negativo: é a falsa consciência. Para ele, ideologia é qualquer formulação teórica das relações sociais que não tenha por base a produção material. Em outras palavras, a ideologia para Marx é resultado da percepção incompleta do funcionamento da sociedade, o que faz com que tomemos como imprescindível uma ordem de coisas que não o é, acreditando ser original uma situação que é, na verdade, um efeito, uma consequência do estado de alienação em que se encontram os indivíduos.



5. Todo conjunto organizado e coerente de ideias que servem de parâmetros para a conduta individual ou coletiva. Toda ideologia implicaria, portanto, uma interpretação da realidade a partir de uma posição social específica, com o intuito de justificar as decisões que são tomadas a partir de lá.



6. As respostas das questões 1, 2 e 3 demonstram a ideologia agindo sobre nós, influenciando-nos nas nossas escolhas e nos nossos desejos.



7. O papel principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dar-lhes a aparência de indivisão e de diferenças naturais entre os seres humanos.



8. A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem pretender transforma-las ou conhece-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as ideias.



9. Resposta pessoal. Possibilidade: o lugar social de que faço parte é a elite da sociedade brasileira. De acordo com Marilena Chauí, há um senso comum social que, na verdade é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita pelos pensadores ou intelectuais da sociedade – sacerdotes, filósofos, cientistas, professores, escritores, jornalistas, artistas –, que descrevem e explicam o mundo a partir de um ponto de vista da classe a que pertencem e que é a classe dominante de uma sociedade. Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as ideias de uma das classes sociais – a dominante e dirigente – tornam-se o ponto de vista e a opinião de todas as classes e de toda a sociedade.



10. Televisão, rádio, internet, jornais, revistas, entre outros que são utilizados pela indústria cultural.



11. A associação entre o modelo de produção em série, adotado pelas indústrias e as empresas de prestação de serviços caracterizam uma nova sociedade: a sociedade de consumo. Esse termo designa a atual sociedade moderna, urbana e industrial, dedicada à produção e aquisição crescentes de bens de consumo cada vez mais diversificados.



12. Para adquirir um bem, precisamos achar realmente importante possuí-lo. Nesse processo, a formação da opinião pública realizada pelos meios de comunicação, comandados por um número pequeno de pessoas que decidem o que vamos escolher, possuir e usar, colabora de forma vital para a criação de necessidades de uso de novos produtos. Esse processo de formação de opinião ocorre quando a opinião – que cada um possui como coisa exclusiva e genuína – é induzida, ou influenciada, pelos jornais, TV e outras formas de comunicação de massa.



13. A diferença não fica só nas mudanças dentro da fábrica, nas mudanças do artesão para o operário, nas mudanças do poder de decisão do artesão para o proprietário da indústria. Há também uma mudança no usuário final do produto, ou seja, no consumidor. Ao adquirir um bem produzido em série, o consumidor nada sabe sobre quem o criou e não tem com ele vínculo cultural ou afetivo, como ocorria, por exemplo, com um objeto de arte.



14. Como numa sociedade de consumo sempre haverá, por mais que consumamos, um novo produto, ou uma nova tecnologia, a ser lançada, melhor do que a que acabamos de consumir, somos obrigados a conseguir mais dinheiro para satisfazer nossas novas "necessidades". É essa a engrenagem principal que faz a economia girar e que torna ilusória a busca da felicidade por meio do consumo.



15. Resposta pessoal. Sob alguns aspectos poderíamos dizer que ela é maléfica, sob outros poderíamos dizer que ela é benéfica.



16. Faz-se necessária uma grande mobilização, popular para que os indivíduos conquistem seus direitos fundamentais da cidadania: emprego, casa, saúde, educação de bom nível. Isso só será conseguido com muita luta, pois o governo, os empresários e os grandes proprietários no Brasil querem a mídia alienante. Eles fazem de tudo para mantê-la assim, a fim de não perder o seu domínio sobre a economia e seus privilégios.



17. A partir dos conceitos da ideologia e sociedade de consumo, Drummond sugere, em sua poesia, que deixamos de ser nós mesmos nesse mundo do consumo, pois nos é passada uma ideia de necessidades, que realmente não temos e tornamo-nos pessoas sem identidade própria, apenas cópias do desejo imposto pela sociedade de consumo, auxiliados pela ideologia, independentemente de sermos dominantes ou dominados na sociedade.



Para refletir sobre ideologia e a sociedade de consumo, veja o video da banda Radiohead, com a música "Fake plastic trees".