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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Confira o artigo do professor Pio Penna

Prezados,
Segue o artigo da semana.
Att.,
Pio Penna




​Turbulências na China e repercussões no Brasil

Nos últimos anos a China foi alçada a uma categoria de destaque nas relações comerciais do Brasil, uma vez que aumentamos muito as nossas exportações para aquele país e começamos a criar uma espécie de dependência com relação ao seu mercado, sobretudo com as exportações de commodities. Ocorre que os chineses começam a enfrentar algumas dificuldades financeiras e econômicas e isso, certamente, impactará as exportações brasileiras para o gigante asiático.
Para uma economia como a brasileira que conta com fundamentos nada sólidos e com o país atravessando uma crise política que parece não ter fim, a situação é realmente preocupante.
Desde 2011 a China é o principal mercado para as exportações brasileiras e a sua importância em termos de investimentos diretos no Brasil vem aumentando consideravelmente. Uma crise prolongada na China, ou mesmo a desaceleração do seu crescimento econômico, algo esperado por muitos economistas, com toda a certeza afetará negativamente a economia brasileira.
A perspectiva de diminuição das exportações brasileiras para um mercado importante como o chinês, e ainda mais num momento difícil como esse para o Brasil, tem o potencial de atrasar a tão desejada e necessária recuperação econômica do país. E há que se notar, ainda, que não é possível redirecionar as exportações para outros mercados num curto período de tempo.
Assim, infelizmente o Brasil não tem muito o que fazer no curto prazo. A se confirmar um cenário de agravamento da crise chinesa, levará tempo para os exportadores brasileiros se adaptarem a essa nova conjuntura que, diga-se de passagem, já não é das melhores para alguns produtos de exportação que vem passando por uma depreciação dos seus preços no mercado internacional, como o minério de ferro.
É preciso observar que a luz amarela já está acesa e ela nos faz recordar uma lição importante em termos de comércio internacional, que é aquela que enfatiza a importância da diversificação de parceiros e de uma pauta de exportações mais variada, que não dependa tanto de alguns poucos produtos, sobretudo de commodities.
O governo brasileiro deve, portanto, retomar essa saudável prática o quanto antes, e buscar diversificar ao máximo os seus parceiros comerciais. A últimas viagens presidenciais, para os Estados Unidos e, mais recentemente, para a Rússia, são pontos positivos para um governo que passa a sensação de estar à deriva no mar revolto.  
Talvez as autoridades chinesas consigam mitigar os efeitos da crise e segurar a brusca queda nas bolsas, mas isso ainda é pura especulação. De toda forma, fica o alerta para as vulnerabilidades econômicas do país, que não são poucas. Embora a China seja um gigante econômico em movimento, precisamos ter consciência que mesmo economias fortes e inovadoras passam por momentos de crise.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Os negócios da China

Negócios na China

Pio Penna Filho

Mal o ano começou e já podemos afirmar que uma das mais importantes viagens presidenciais de 2011 está ocorrendo essa semana. A ida da presidente Dilma à China reveste-se de especial interesse para o Brasil, tanto em termos políticos quanto econômicos e comerciais.

Recentemente a China se transformou no principal parceiro comercial do Brasil, superando os Estados Unidos. Tem tudo para ser, igualmente, um importante investidor na economia brasileira, sem contar o fato de que pode também se transformar num parceiro estratégico em termos de cooperação científica e tecnológica.

Brasil e China já possuem uma parceria no âmbito dos BRICs, que incluem ainda a Índia, a Rússia e a África do Sul. Embora as posições chinesas caminhem cada vez mais para uma grande autonomia de interesses frente a esses outros países, podemos identificar nesse bloco um arranjo político que ajuda na aproximação entre os dois emergentes.

Mas o que mais importa para o Brasil com a China não é tanto a agenda política. Aliás, na arena política as divergências são mais fortes do que as convergências. Exemplo disso é que a China não deseja uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, posição que se confronta com um objetivo que o Brasil vem perseguindo há décadas.

Já no campo comercial o aumento do intercâmbio sino-brasileiro é visto, no geral, com bons olhos pelo Brasil. Todavia, a característica principal desse comércio tem preocupado cada vez mais as autoridades brasileiras. Apesar de próspero, ele está assentado em bases desiguais, no sentido de que o Brasil tem sido um grande exportador de matérias-primas e commodities e um grande importador de produtos manufaturados.

Trata-se, pois, de um comércio muito desigual e, até certo ponto, desvantajoso, uma vez que reproduz modalidades bastante conhecidas que não contribuem muito para o desenvolvimento econômico dos países que permanecem dependentes da exportação de matérias-primas e commodities.

Tem incomodado também ao governo brasileiro a grande concentração de investimentos chineses no Brasil na área de infraestrutura e na produção agrícola, sobretudo o planejamento chinês de se concentrar na produção de soja. Essa tendência sugere que os chineses desejam do Brasil principalmente os nossos recursos naturais e a exploração de nossa capacidade agrícola.

O que o governo brasileiro deseja é diversificar um pouco mais a nossa pauta de exportações, aumentar a venda de produtos industrializados e aumentar a parceria nos campos da ciência e tecnologia. Busca, também, fazer com que o governo chinês seja mais aberto para alguns investimentos brasileiros no país, haja vista que até agora várias empresas brasileiras tem tido grande dificuldade em produzir na China.


Enfim, as perspectivas diante do “capitalismo amarelo”, nas palavras do professor Argemiro Procópio, são boas, mas desde que o Brasil atue com prudência e siga uma orientação política clara, que busque construir uma parceria que traga benefícios aos dois países e não simplesmente reproduza o modelo típico de relacionamento entre Norte e Sul.


Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com