sábado, 23 de fevereiro de 2013

Pio Penna comenta sobre a visita da blogueira cubana ao Brasil



Yoani Sánchez no Brasil

                                                                                  Pio Penna Filho

           A mundialmente famosa blogueira cubana Yoani Sánchez deve estar se surpreendendo com sua visita ao Brasil. Hostilizada por muitos manifestantes desde a sua chegada, que incluiu a entrega prévia, por parte de diplomata cubano, de um dossiê sobre a sua vida e atividades políticas a funcionário do Palácio do Planalto, essa corajosa cubana certamente sairá do Brasil com impressões um tanto contraditórias.

Yoani fazendo sua cabeça por Ivan 580x379 PT espreme Yoani            

        No Brasil, de um lado, há um sentimento geral de solidariedade à sua luta por mais liberdade e democracia em Cuba. Por outro, há o sentimento contrário, expresso por grupos ideológicos e correntes políticas que, embora sejam minoria, são bem organizados e conseguem fazer repercutir em grande escala a sua ira contra aquela que consideram ser “vendida” aos interesses norte-americanos e capitalistas.
           Yoani Sánchez ganhou reconhecimento internacional e vários prêmios por ser considerada uma destemida defensora da liberdade de expressão e dos direitos humanos. A repercussão do seu trabalho é ampla, assim como o é o reconhecimento internacional que obteve ao longo dos últimos anos, sobretudo após o lançamento do seu blog “Generación Y”, ocorrido em 2007.
           Sánchez iniciou uma árdua luta por liberdade de expressão num país marcado pela longeva ditadura dos Castro. Apesar do regime cubano ter sinalizado que seguiria na direção de maior liberdade e aprofundamento das reformas políticas, o controle da sociedade pelo Estado ainda é muito forte na Ilha e uma das provas mais contundentes foi a dificuldade da blogueira em conseguir autorização do regime para viajar ao exterior.
             Seria até muito interessante se pudéssemos observar qual seria o comportamento dos críticos radicais a Yoani Sánchez se eles vivessem num país em que a liberdade de expressão é “vigiada e controlada” de perto pelos agentes do Estado.
           Há muita dificuldade em se entender que o objetivo de Sánchez não é exatamente derrubar o regime de Fidel/Raul Castro, a não ser que se acredite que maior abertura política e liberdade de expressão sejam incompatíveis com o regime. Se assim o for, de fato o governo cubano está diante de uma perigosa “subversiva”.
      Mas curioso mesmo é observar como alguns países que se consideram democracias plenas tem tratado a militante cubana. No Brasil, como dito anteriormente, um funcionário do Palácio do Planalto recebeu um dossiê do governo cubano, como se isso fosse algo normal. A Argentina de Cristina Kirchner colocou tantas dificuldades para que Yoani conseguisse o visto que ela desistiu de obtê-lo enquanto estava em Cuba (aparentemente ela conseguirá o visto aqui no Brasil).
        Muitos governantes “democratas” precisam aprender a conviver com os “incômodos” da democracia, ou seja, a diversidade de opinião, a liberdade de expressão e o respeito ao pensamento alheio. Pelo visto, em muitos países latino-americanos ainda estamos longe desse ideal.


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Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com

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