quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Pio Penna aborda os conflitos na República Centro Africana



Insurgência na República Centro Africana

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 Pio Penna Filho


A República Centro Africana (RCA) está passando por uma fase política complicada nos últimos dois meses. Embora a maior parte da imprensa brasileira não esteja noticiando os acontecimentos no país, a mídia internacional tem dado certo destaque à ameaça de queda do governo e da intervenção internacional no conflito.
Ocorre que vários grupos insurgentes se rebelaram novamente e retomaram o processo violento de contestação ao governo do presidente François Bozize. Assim, os rebeldes de três distintos grupos criaram uma coalização chamada Seleka, que na língua Sango significa aliança. Vindos do nordeste do país, em aproximadamente três semanas passaram a controlar cerca de um terço do território da RCA, incluindo importantes cidades do interior do país. Hoje, estão há apenas 75 quilômetros da capital, Bangui.
A aliança Seleka exige o fim do governo de Bozize, que constitucionalmente só terminará no início de 2016, alegando principalmente que o seu governo não cumpriu os acordos de paz celebrados entre grupos insurgentes e o governo central entre 2007 e 2011.
Vale ressaltar que esses acordos estabeleciam a deposição das armas por parte dos rebeldes em troca de indenizações e da integração de seus membros ao Exército do país, o que não ocorreu. De acordo com o governo, a causa para o não cumprimento dos acordos foi a falta de recursos, embora seja um tanto evidente que houve também uma grande falta de vontade política das autoridades para encaminhar a questão.
O país é um dos mais pobres do continente africano e possui uma economia pouco diversificada, o que não seria, em tese, um grande problema caso houvesse uma melhor distribuição de renda, haja vista que conta com uma população modesta, de aproximadamente 5 milhões de pessoas. A expectativa de vida, de apenas 50 anos, é um dado revelador da pobreza generalizada e da falta de ações públicas em todos os campos.
O país conta com certos minerais considerados estratégicos ou valiosos no mercado internacional, como ouro, diamante e urânio. Além disso, a madeira é outro produto de destaque nas exportações do país, que ainda registra em sua pauta algodão, café e tabaco. Nota-se, portanto, uma forte dependência de matérias-primas e produtos agrícolas para a sua sustentação econômica.
Um marco na história recente da RCA foi a sua independência da França, conquistada em 1960. Mas desde então, o país não conseguiu superar as características principais de uma economia colonial, dependente da exportação de poucos produtos e que foi acompanhada de forte instabilidade política, daí os longos períodos de governos ditatoriais.
O que está acontecendo hoje na RCA é reflexo de um país com economia precária, instabilidade política, pobreza e escassez generalizadas, além de baixíssimo grau de desenvolvimento institucional. Tudo isso combinado distanciou muito o Estado da Sociedade, levando a uma situação de conflito de difícil solução.



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Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com

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