quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Pio Penna Filho analisa a invasão chinesa


Invasão Chinesa
 
Pio Penna Filho
Produtos chineses e chineses estão por toda parte, em praticamente todos os países do mundo. A invasão chinesa é geral. No Brasil, assim como em outras partes do mundo, não há cidade que não possua em suas lojas, das mais populares aos grandes magazines, centenas de produtos made in China vendidos geralmente a preços muito baixos.
Isso tem um custo elevado para um país industrializado como o Brasil e a sensação é de que o governo tem feito muito pouco para lidar com esse fenômeno que já se arrasta por décadas. Pode-se dizer que parte da indústria nacional sucumbiu diante do capitalismo chinês.
Os chineses dizem que suas indústrias são competitivas e que por isso ganham mercados. Mas o argumento é apenas parcialmente verdadeiro. Se formos analisar com mais cuidado, os chineses praticam um capitalismo quase selvagem, que explora intensamente a mão-de-obra dos seus trabalhadores e deixa pouca margem para uma competição mais justa.
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Além disso, outra característica marcante da indústria “chinesa” é a pirataria. Copiam descaradamente patentes e marcas que levaram tempos para se firmar no mercado internacional e descarregam essas réplicas em todas as direções. Apenas muito recentemente, e mesmo assim de forma ainda muito restrita, começaram a surgir produtos desenhados pelos próprios chineses.
O capitalismo chinês incomoda por sua agressividade mas também pela qualidade duvidosa de muitos dos seus produtos, que geralmente são destinados a público de baixa renda. Não é à toa que muitos consumidores viram a cara quando descobrem que estão comprando algum manufaturado produzido na China. Já sabem de antemão que a chance do produto durar é quase nula. Em sua maioria, esse tipo de mercadoria é praticamente descartável.
Diante de tudo isso, o que fazer? Como competir com uma indústria que consegue produzir a tão baixo custo, tanto pela mão-de-obra barata e abundante quanto pela grande quantidade que produz, haja vista que o mercado é praticamente o mercado mundial? Difícil, muito difícil. Aparentemente não existe uma saída exclusivamente baseada no mercado. A saída é, necessariamente, política.
A análise da pauta comercial Brasil-China nos mostra que estamos exportando commodities e importando cada vez mais produtos industrializados. É um comércio desigual e que beneficia muito mais a China do que o Brasil, gerando mais renda e empregos lá do que aqui.
Se computarmos então o que entra de forma ilegal no Brasil proveniente da China, a conclusão óbvia é que o problema é ainda mais grave. Aliás, não bastasse a entrada de produtos estamos assistindo também ao aumento da entrada de chineses no Brasil. Não é incomum encontrar nos shoppings populares espalhados pelo país chineses que mal falam português vendendo produtos chineses. Só não encontramos a fiscalização, seja da Polícia Federal, seja das autoridades fiscais.
Do jeito que vai, a China se transformará num pesadelo para o Brasil. Estamos reproduzindo com a China o perverso padrão desigual de nossas trocas exteriores que vem desde o final do século XIX. Parece que os chineses conseguiram dar um salto adiante e nós ficamos no mesmo lugar.

 
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Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com

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